domingo, maio 22, 2005

domingo, maio 15, 2005

*

your hands will not be able to stretch as far as necessary to form an adequate gesture for beauty
(you know that, don´t you?)

so beauty remains in the impossibilities of the body *


ouvido interno (beauty?*)


anne arden mcDonald


einstürzende neubaten / beauty* / silence is sexy

domingo, maio 08, 2005

domingo à tarde

os cães ladram ao longe um pássaro construiu um ninho na ameixoeira há abelhas na sua tarefa infindável faz calor

saboreio o álcool a pimenta e o gelo agrada-me sobretudo o tinir do gelo contra as faces embaciadas do vidro e gosto de alisar com o meu polegar a geometria dócil das gotículas de vapor

vai começar a anoitecer subo as escadas para retornar ao significado obscuro das tarefas habituais

sexta-feira, abril 29, 2005

segunda-feira, abril 25, 2005

sábado, abril 23, 2005

o questionário ao som de calcanhotto




um livro lido. joseph, a um deus desconhecido / zenão, obra ao negro. duas viagens, francisco villa lobos. prometeu agrilhoado, ésquilo. erva vermelha, boris vian o tempo aprazado, ingeborg bachmann memória das minhas putas tristes, gabriel garcia marquez. -----------. -------------.

sábado, abril 16, 2005

os dias quase perfeitos


são os passados curvada sobre a terra com o ácer o jasmim os amores (im)perfeitos e as pequenas plantas anónimas que agora se enraízam no jardim

são quando abro brechas na terra como se mergulhasse na água
e é finalmente o encontro de duas paixões


é o confronto com a mulher que diz não se levar demasiado a sério e por isso não estar em inferioridade perante a vida (agustina)

sexta-feira, abril 15, 2005

absolut bergman (persona revisitado)



há estórias e imagens que nunca se esgotam: mais que viscerais são ontogénicas
depois delas nunca mais somos os mesmos nem olhamos o mundo da mesma forma

há realizadores assim, que fazem filmes para habitar em nós

quinta-feira, abril 14, 2005

domingo, abril 10, 2005

tactear para ver no escuro



A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas
há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância

Luiza Neto Jorge

quarta-feira, abril 06, 2005

lugares des.habitados


mihai mangiulea / neverplaces 2

Há um barco vazio que ao cair da noite vai descendo o canal negro.
Na obscuridade do velho asilo há ruínas humanas em decadência.
Os órfãos mortos jazem junto aos muros do jardim.
De quartos cinzentos saem anjos com asas sujas de excrementos.
Gotejam-lhes vermes das asas amareladas.
A praça da igreja está sombria e mergulhada no silêncio, como nos dias da infância.
Sobre solas de prata deslizam vidas passadas
E as sombras dos condenados descem às águas soluçantes.
No túmulo, o mago branco brinca com as suas serpentes.

(george trakl / outono transfigurado / excerto do poema salmo)

terça-feira, abril 05, 2005

lugares des.habitados


alentejo / 2005

carcomidos. em carne viva. eles têm o céu entre os limites das ruínas.

sábado, abril 02, 2005

notas de viagem II




sob as árvores dos largos alentejanos / 2005

lá, as paredes são rasas, quase nulas, porque há sempre uma árvore no centro do coração

domingo, março 27, 2005

ouvido interno (into color)






do Outro ela ouvia a cor onde nós só víamos o preto e branco
(memória arquivada: pina bausch (principessa Lherimia) / e la nave va / fellini)

(fotografias de nicole stager)

quinta-feira, março 24, 2005

pelos olhos passeiam imagens (# 05)


maggie taylor

O decifrador de imagens
persegue um fantasma de vestígios
como Ulisses amarrado
ao querer do conhecer

A descoberta é invenção provisória:
as vozes não se vêem
o que se vê não se ouve

A imaginação
ergue-se do arrepio da sombra
guerrilha entre parênteses
ergue-se da constante chacina
procurando outra coisa
outra causa
o outro lado do ver

(ana hatherly)

sexta-feira, março 18, 2005

anjos à tua porta




jean genet /excerto do poema o condenado à morte


francesca woodman / from angel series

porto / 2005

graciela iturbide / mujer anjel

(...)

y sobre todo ángeles,

ángeles bellos como cuchillos

que se elevan en la noche

y devastan la esperanza.

(alejandra pizarnik)

quarta-feira, março 16, 2005

a quase invisibilidade

é fatal quando no dia seguinte acordamos para a insignificância das imagens face aos pequenos momentos de estado de graça




2005

segunda-feira, março 14, 2005

vera drake


treme-se durante este filme.
há olhares que as palavras não conseguem contar.
foi há cinquenta anos, é ainda hoje.

quarta-feira, março 09, 2005

a vida a preto e branco # 02

há alturas em que acreditar no humano é o mais excruciante exercício de crença




imagens da trilogia documental qatsi de godfrey reggio

Ko.yaa.nis.qatsi (from the Hopi language), n. 1. Crazy life. 2. Life in turmoil. 3. Life disintegrating. 4. Life out of balance. 5. A state of life that calls for another way of living.
Po.waq.qa.tsi (from the Hopi language, powaq sorcerer + qatsi life)
n., an entity; a way of life, that consumes the life forces of other beings in order to further its own life. (life in transformation)
Na-qoy-qatsi (nah koy’ kahtsee) N. From the Hopi Language.
1. A life of killing each other. 2. War as a way of life. 3. (Interpreted) Civilized violence.

terça-feira, março 08, 2005

a vida a preto e branco # 01

Ciclo

O molar solitário de uma prostituta,
que morrera no anonimato,
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.

Gottfried Benn

segunda-feira, março 07, 2005

instante



2005

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes 
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio 
 Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, março 01, 2005

última ciência*

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2005

Águas espasmódicas, luas repetidas nas águas.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
cardíaca e mútua.
- De nome em nome passam por mim os sopros.

(*herberto helder)