sexta-feira, junho 24, 2005

hanabi ou planando sob o jacarandá




mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches febris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama: Aaaah!


(jack kerouac chegado através do v.b.)






(pinturas de takeshi kitano)

os dias de s. joão são sempre lentos para poder saborear a memória dos meus amores planando em voo raso debaixo do jacarandá


terça-feira, junho 21, 2005



2001

e a pele arde abrindo os poros loucamente para que o mar possa entrar mais uma vez


subject : weekly search report

Daily Search Activity
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From: Tue Jun 14 00:00:00 PDT 2005
To: Tue Jun 21 00:00:00 PDT 2005

(no information to report)

terça-feira, junho 14, 2005

metade da minha alma é feita de maresia *




björk / the anchor song


o mar não se faz íntimo, não crepita ao alcance da mão:
olhar para ele toma-nos muito tempo antes de imaginarmos que podemos tocá-lo.


marie darrieussecq / o mar, a mãe
* sophia de mello breyner



sábado, junho 11, 2005

pode ser sem título *



montemuro/2005

Acontece-me estar sentada debaixo de uma árvore,

à beira-rio,
numa manhã de sol.
Trata-se de um facto inócuo
e não fará parte da história.
Não são batalhas ou pactos
cujas causas se pesquisa,
nem memoráveis assassínios de tiranos.

E contudo aqui estou à beira-rio, é um facto.
E se aqui estou
de algures tive de vir,
e, antes disso,
que deambular por muitos lugares,
tal qual os conquistadores de terras
antes de subirem à coberta.

Qualquer momento mesmo fugaz tem seu passado luxuriante,
a sua sexta antes de sábado,
o seu Maio antes de Junho.
Tem os seus horizontes tão verídicos
como em binóculos de comandantes.

Esta árvore é um choupo há anos enraizado.
O rio é o Raba e é não de hoje o seu fluir.
Não foi anteontem que este carreiro
foi repisado entre os arbustos.
O vento, para dispersar as nuvens,
teve antes que aqui as juntar.

E embora aqui em volta nada de grande aconteça,
nem por isso o mundo é mais pobre de pormenor,
mais mal fundamentado, mais fragilmente definido,
que quando o dominavam as migrações dos povos.

Nem só as secretas conspirações se rodeiam de silêncio.
Nem só às coroações conduzem os cortejos.
Rolam os aniversários das revoluções
como revolteiam os seixos das margens.

Intrincado é também o denso bordado das circunstâncias.
O carreiro de formigas sobre a erva.
A relva cosida ao chão.
o desenho das ondas onde o graveto se insinua.

Acontece assim, estou e olho.
Volteia sobre mim uma borboleta branca
batendo asas que só a ela pertencem,
e, sobre a minha mão, a sombra que
não é de outra, de mais ninguém, é só dela.

E, vendo isto, sinto sempre uma certeza abandonar-me:
a de que aquilo que é importante
o seja mais do que aquilo que não o é.

wislawa szymborska /pode ser sem título, paisagem com grão de areia

quarta-feira, maio 25, 2005

domingo, maio 22, 2005

domingo, maio 15, 2005

*

your hands will not be able to stretch as far as necessary to form an adequate gesture for beauty
(you know that, don´t you?)

so beauty remains in the impossibilities of the body *


ouvido interno (beauty?*)


anne arden mcDonald


einstürzende neubaten / beauty* / silence is sexy

domingo, maio 08, 2005

domingo à tarde

os cães ladram ao longe um pássaro construiu um ninho na ameixoeira há abelhas na sua tarefa infindável faz calor

saboreio o álcool a pimenta e o gelo agrada-me sobretudo o tinir do gelo contra as faces embaciadas do vidro e gosto de alisar com o meu polegar a geometria dócil das gotículas de vapor

vai começar a anoitecer subo as escadas para retornar ao significado obscuro das tarefas habituais