sábado, outubro 15, 2005

a condição humana


saraband, ingmar bergman, 2004

sob a luz de bergman tudo se depura e ficamo-nos a olhar fascinados e comovidos


sábado, setembro 17, 2005

terça-feira, setembro 13, 2005

tactear para ver no escuro III



2004



(poema de herberto helder sobre bloco de notas da ecoteca)

Quando alguém parte, tem de deitar

ao mar o chapéu com as conchas

apanhadas ao longo do verão,

e ir-se com o cabelo ao vento,

tem de lançar ao mar

a mesa que pôs para o seu amor,

tem de lançar ao mar

o resto de vinho que ficou no copo,

tem de dar o seu pão aos peixes

e misturar no mar uma gota de sangue,

tem de espetar bem a faca nas ondas

e afundar o sapato,

coração, âncora e cruz,

e ir-se com o cabelo ao vento!

Depois, regressará,

Quando?

Não perguntes.

ingeborg bachmann / excerto do poema canções de uma ilha

quinta-feira, setembro 08, 2005

um jardim de betão à beira mar plantado ou quando o 'progresso' entra pela porta sai tudo pela janela

temo muito seriamente que o que actualmente é assim

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se transforme nos próximos anos nisto

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estão previstas para a freguesia de Melides perto de 6000 novas camas entre as 50 000 mil que se espera para toda a zona que sobe dali até Tróia
o presidente da câmara municipal de Grândola já afirmou que com ou sem despacho ministerial a coisa vai avançar
é preciso mais?

imagens Google Earth (http://earth.google.com)

ronda nocturna




2005

os seres que se alimentam da luz serão sempre um mistério para mim


quarta-feira, agosto 31, 2005

botânica II

O silêncio das plantas

O conhecimento entre mim e vós

não se vai desenvolvendo mal de todo.

Sei o que é uma folha, um espinho, uma pinha, um caule,
o que convosco se passa em Abril, o que em Maio.

E embora a minha curiosidade não tenha o seu recíproco,
sobre algumas me debruço especialmente,
e para algumas de vós ergo a cabeça.

Há nomes vossos em mim:
o ácer, o lódão, a hepática,
dedaleira, zimbro, visgo, malmequer.

A nossa viagem é conjunta.
E é claro que durante as nossas viagens conjuntas se conversa,
uma troca de reparos que seja sobre o tempo,
sobre as estações velozmente ultrapassadas.

Temas não faltariam porque imensa coisa nos liga.
Aquela mesma estrela nos tem ao seu alcance.
Lançamos sombra sob idênticas leis.
tentamos saber algo, cada um à sua maneira,
e até no que ignoramos há semelhança.

Esclareço o que posso mas perguntem:
que é isso de ter olhos para olhar,
por que me bate o coração,
e por que não tenho o corpo com raízes.

Mas como dar resposta a perguntas por fazer,
se ainda por cima se é alguém
tão para vocês coisa nenhuma.

Prados e juncos, pinhais novos, epífitos –
tudo o que vos digo é um monólogo
e vocês não escutam.

A conversa convosco é necessária e impossível.
urgente na vida célere
e adiada para nunca.


wislawa szymborska

botânica I

os dias encheram-se de nomes :
lonicera japonica, wisteria sinensis, bellis perennis, crassula argentea, sempervivum zeloborii

dei por mim viciada em terra



segunda-feira, agosto 15, 2005

entranharam-se nos meus dias




alentejo 2005

quando conto até sessenta sob a luz vermelha eles aparecem mais uma vez

o tempo encarrega-se sempre de nos descarnar
sobre a terra sobram-nos os ossos


quinta-feira, julho 21, 2005

quinta-feira, junho 30, 2005

tactear para ver no escuro II


Saía do escuro desfiladeiro. Em boa verdade, já por várias vezes de lá saíra. E havia de sair ainda. Os tratados consagrados à aventura do espírito enganavam-se ao atribuírem a essa aventura sucessivas fases: tudo se confundia, pelo contrário, tudo estava sujeito a ser infinitamente repisado, repetido. A demanda do espírito processava-se em círculo. Dantes, em Basileia, e em vários outros lugares, passara por idêntica escuridão. As mesmas verdades haviam sido reaprendidas várias vezes. Mas a experiência era cumulativa: o passo, com o tempo, tornava-se cada vez mais seguro; o olhar ganhava mais alcance no meio de certas trevas; o espírito constatava, pelo menos, certas e determinadas leis. Como um homem que sobe, ou quiçá desce a falda de uma montanha, assim ele se elevava ou se enterrava sem sair do mesmo sítio; pelo menos, em cada curva, um novo abismo se erguia, ora à direita, ora à esquerda. A ascenção só podia medir-se pelo ar que ia rareando e pelos diferentes cumes que apontavam por detrás daqueles que já pareciam haver ocultado o horizonte. Era, porém, falsa a noção de ascenção ou de descida: os astros tanto brilhavam em cima como em baixo; e ele tanto se achava no fundo do abismo como no centro. O abismo estava, ao mesmo tempo, para além da esfera celeste e no interior da cúpula óssea. Tudo parecia processar-se no extremo limite de uma série infinita de curvas fechadas.

marguerite yourcenar / a obra ao negro, segunda parte: a vida imóvel