segunda-feira, janeiro 31, 2005

sonho de um dia de inverno

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(douro / 2005)

deambular entre os vapores do azeite morno e os caminhos escondidos das aldeias
(ou manual de iniciação na arte de ser um quebra-esquinas)

sexta-feira, janeiro 28, 2005

se isto é um homem*

uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque não é humana a experiência de quem viveu dias em que o homem foi uma coisa aos olhos do homem.

Primo Levi (*)


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imagens da curta-metragem de Alain Resnais Noite e Nevoeiro, 1955

sessenta anos depois continuamos a construir uma história de atrocidades

quinta-feira, janeiro 20, 2005

pelos olhos passeiam imagens (# 04)

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susannah hays / cosmic man (da série in/visible cosmos)

mais que Vitrúvio, Prometeu agrilhoado

quarta-feira, janeiro 19, 2005

a nadadora

O primeiro contacto é de expectativa.
Vais entrar num outro elemento, desconheces ainda como actuar.


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Mergulhas. Agora, o teu único elo com o mundo são os pulmões. Só eles não se submetem, exigindo ar, exigindo que continues viva da única forma que aprendeste. São ainda matéria exalando coágulos de ar que rebentam à superfície da água e que te obrigam a emergir uma e outra vez abrindo a garganta ao mundo. Os pulmões não têm memória - esqueceram a dor da primeira respiração.

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Assemelhas-te a uma medusa.
Os teus braços e pernas, os músculos que te impulsionam, que estremecem de esforço quando expostos à terra e ao ar, já não são carne e não lhes sentes o peso esmagador. A dor da lei da gravidade cessou e a levitação não é mais um artifício mágico.

Mergulhas mais profundamente e o som do mundo é-te devolvido em ruídos desconexos. Sem ar todas as palavras se tornam indizíveis e é necessário aprender uma nova linguagem e assim transformas-te numa nadadora.

Deslizas, de olhos bem abertos, sentindo os halos de luz que chocam contra o teu corpo.
A tua comunhão é total: a morte deve ser este esquecer da consciência dela própria, este respirar dentro de água novamente, um tempo uterino invertido. O desaparecimento é uma simetria ousada do início da vida, regrides ao estado de embrião e tornas-te água.


(fotografias: ken rosenthal / da série seen and not seen)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

jardim de inverno (# 02)

Estou a escrever-te do fim do mundo. Tens de sabê-lo. É vulgar as árvores estremecerem. Apanham-se as folhas. Com tantas nervuras que nem se imagina. Mas para quê? Já não têm nada a ver com a sua árvore, e por isso dispersamos, contrariadas.
A vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou tem tudo sempre, sempre que tremer?
Também há movimentos subterrâneos, e em casa é como se viessem cóleras ter connosco, como se austeros seres viessem arrancar-nos confissões.
Nada vemos, do que importa tão pouco ver-se. Nada, e no entanto trememos. Porquê?

(henri michaux)

quarta-feira, janeiro 12, 2005

vamos brincar às bonecas?

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(2005)

na vila, descoberta pelo olhar de um miúdo, a boneca, à porta de casa, mutilada, suspensa de um prego.

estranhos paralelos de identidade.

domingo, janeiro 09, 2005

sexta-feira, janeiro 07, 2005

1+1

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(louise bourgeois)

quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música, um
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo
laranja)
contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

-e então somos Eu e Ela...

o que é isso que o realejo toca

(e.e.cummings)

quinta-feira, janeiro 06, 2005

missing...

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pasárgada.
avistada pela última vez entre as teclas delete e escape, evidenciando sinais de perturbação psíqui0)ae%824isy*hiuqew9c9n7t4wb+&hni8ho7miuc284yn0mj01=)(&&#$c9ue/\b84hc ´1’o’3u

terça-feira, janeiro 04, 2005

quarta-feira, dezembro 29, 2004

a reconstrução dos dias

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sally mann / da série cibachromes / 1981.83

não falo do princípio nem do fim
sigo apenas atenta à invisibilidade das coisas
embora por vezes tropece em dias cheios de destroços


mas vou limpando esses territórios de devastação
organizando a planta da minha casa,
esta é a minha sala, este é o meu quarto,
este é o estreito corredor onde abro a porta e saio para o mundo.

terça-feira, dezembro 28, 2004

( )

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a onda / katsushika hokusai

ela diz:
“eu não fui domesticada, eu não sou traduzível, lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo”.
alguém a devia ouvir.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

cheiros de inverno

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(fotografia de jam / douro, 2003)

nestes lugares respira-se o sol por entre as vides

terça-feira, dezembro 21, 2004

pelos olhos passeiam imagens (# 03)

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(sally mann / da série family color / 1990.91)

childhood house (an excerpt)

...somehow i had assumed
that the past stood still, in perfected effigies of itself,
and that what we had possessed remained our possession
forever, and that at the least the past, our past, our childhood,
waited, always available, at the touch of a nerve,
did not deteriorate like the untended house of an
aging mother, but stood in pristine perfection, as in
our remembrance. I see that isn't so, that
memory decays like the rest, is unstable in its essence,
flits, occludes, is variable, sidesteps, bleeds away, eludes
all recovery; worse, is not what it seemed once, alters
unfairly, is not the intact garden we remember but,
instead, speeds away from us backward terrifically
until when we pause to touch that sun-remembered
wall the stones are friable, crack and sift down,
and we could cry at the fierceness of that velocity
if our astonished eyes had time.

eric ormsby

domingo, dezembro 19, 2004

quinta-feira, dezembro 16, 2004

os dias absurdos

o artista deve pôr em ordem a sua vida.
Os meus actos diários têm este rigoroso horário:
Levantar: às 7.18 h; inspirado: das 10.23 h às 11.47 h. Começo a almoçar às 12.11 h e saio da mesa às 12.14 h.
Saudável passeio a cavalo no fundo do meu parque: das 13.19 h às 14.53 h. Outra inspiração das 15.12 h às 16.07h.
Ocupações várias (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, destreza, natação, etc.) das 16.21 h às 18.47 h.
O jantar é servido às 19.16 h e termina às 19.20 h. Das 20.09 h às 21.59 h chega a altura das leituras sinfónicas em voz alta.
Deito-me regularmente às 22.37 h. Hebdomanariamente (às terças), um despertar em sobressalto às 3.19 h.
Só como alimentos brancos: ovos, açúcar, ossos ralados; gordura de animais mortos; vitela, sal, nozes de coco, frango cozido em vinho branco; bolor de fruta, arroz, nabos; rolinhos de naftalina, massas, queijo (branco), salada de algodão e certos peixes (sem a pele).
O vinho, mando-o ferver e bebo-o frio com sumo de fúchsia. Tenho apetite; mas enquanto como não falo, com medo de me engasgar.
Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Muito raramente danço. Quando me desloco, apoio-me numa camisa de onze varas e olho fixamente para trás.
Quando rio, o meu ar muito sério não é de propósito; peço sempre, com ar afável, que mo desculpem.
Só durmo com um olho; e tenho um sono muito duro numa cama que uso redonda, com um buraco para enfiar a cabeça. De hora a hora, um criado tira-me a temperatura e dá-me outra.
Sou, desde há muito, assinante de um jornal de modas. Uso boné branco, meias brancas, colete branco.
O meu médico disse-me sempre para eu fumar. E a tal conselho, acrescenta:
- O meu amigo fume; se não o fizer, outro fumará por si.

(erik satie, memória de um amnésico)