O tecto fundo de oxigénio, d’ar, Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; Vem lágrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cai nas lajes, às escuras: Colocam-se taipais, rangem as fechaduras, E os olhos dum caleche espantam-me sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta, A dupla correnteza augusta das fachadas; Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, As notas pastorais de uma flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castíssimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que sonhos ágeis, Pousando, vos trarão a nitidez às vidas! Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir, E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastidões aquáticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados, Sem árvores, no vale escuro das muralhas!... Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas E os gritos de socorro ouvir estrangulados.
E nestes nebulosos corredores Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas; Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos; Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes; E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, Amareladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas, Caminham de lanterna e servem de chaveiros; Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros, Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular Dos prédios sepulcrais, com dimensões de montes, A Dor humana busca os amplos horizontes, E tem marés, de fel, como um sinistro mar.
Cesário Verde (* Alberto Caeiro, sobre Cesário Verde)
uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque não é humana a experiência de quem viveu dias em que o homem foi uma coisa aos olhos do homem.
Primo Levi (*)
imagens da curta-metragem de Alain Resnais Noite e Nevoeiro, 1955
sessenta anos depois continuamos a construir uma história de atrocidades
O primeiro contacto é de expectativa. Vais entrar num outro elemento, desconheces ainda como actuar.
Mergulhas. Agora, o teu único elo com o mundo são os pulmões. Só eles não se submetem, exigindo ar, exigindo que continues viva da única forma que aprendeste. São ainda matéria exalando coágulos de ar que rebentam à superfície da água e que te obrigam a emergir uma e outra vez abrindo a garganta ao mundo. Os pulmões não têm memória - esqueceram a dor da primeira respiração. Assemelhas-te a uma medusa. Os teus braços e pernas, os músculos que te impulsionam, que estremecem de esforço quando expostos à terra e ao ar, já não são carne e não lhes sentes o peso esmagador. A dor da lei da gravidade cessou e a levitação não é mais um artifício mágico.
Mergulhas mais profundamente e o som do mundo é-te devolvido em ruídos desconexos. Sem ar todas as palavras se tornam indizíveis e é necessário aprender uma nova linguagem e assim transformas-te numa nadadora.
Deslizas, de olhos bem abertos, sentindo os halos de luz que chocam contra o teu corpo. A tua comunhão é total: a morte deve ser este esquecer da consciência dela própria, este respirar dentro de água novamente, um tempo uterino invertido. O desaparecimento é uma simetria ousada do início da vida, regrides ao estado de embrião e tornas-te água.
(fotografias: ken rosenthal / da série seen and not seen)
Estou a escrever-te do fim do mundo. Tens de sabê-lo. É vulgar as árvores estremecerem. Apanham-se as folhas. Com tantas nervuras que nem se imagina. Mas para quê? Já não têm nada a ver com a sua árvore, e por isso dispersamos, contrariadas. A vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou tem tudo sempre, sempre que tremer? Também há movimentos subterrâneos, e em casa é como se viessem cóleras ter connosco, como se austeros seres viessem arrancar-nos confissões. Nada vemos, do que importa tão pouco ver-se. Nada, e no entanto trememos. Porquê?