quarta-feira, janeiro 04, 2006

tactear para ver no escuro IV



2000


os mais valentes - vão a tactear
e às vezes chocam contra uma árvore/mesmo na testa -
mas aprendem a ver
(emily dickinson)

segunda-feira, dezembro 05, 2005

unos cuantos piquetitos *



nunca conseguirei juntar-te toda / 1998


bilbau/2003




img da exposição world press photo 05

img da exposição anschool II / thomas hirschhorn

(* título de uma obra de Frida Kahlo)

quinta-feira, novembro 03, 2005

a gralha negra em tempo de chuva*

Lá no alto, num ramo firme
arqueia-se uma gralha negra toda molhada
arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva.
Não espero qualquer milagre
nem nada

que venha lançar lançar fogo à paisagem
no interior dos meus olhos, nem procuro
mais no tempo inconstante qualquer desígnio,
mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,
sem cerimónia ou maravilha.

Embora - admito-o - deseje
ocasionalmente alguma resposta
do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
uma certa luz pode ainda
surgir incandescente

da mesa da cozinha ou da cadeira
como se um fogo celestial tornasse
seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,
assim consagrando um intervalo
de outro modo inconsequente

por nos dar grandeza e glória,
ou até amor. De qualquer modo, caminho agora
atenta (pois isso poderia acontecer
mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,
mas astuta, ignorante

de que um anjo se decida a resplandecer
repentinamente a meu lado. Apenas sei que uma gralha
ordenando as suas penas negras pode brilhar
de tal maneira que prenda a minha atenção, erga
as minhas pálpebras, e conceda

um breve repouso com medo
de uma neutralidade total. Com sorte,
viajando teimosamente por esta estação
de fadiga, acabarei
por juntar um conjunto

de coisas. Os milagres acontecem
se gostares de invocar aqueles espasmódicos
gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo,
a longa espera pelo anjo,
por essa rara, fortuita visita.

*/sylvia plath

segunda-feira, outubro 24, 2005

para elsinore


1

Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo

O castelo fora por vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo e exorcizado

No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue

2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite

Eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite

(sophia de mello breyner)

sábado, outubro 15, 2005

a condição humana


saraband, ingmar bergman, 2004

sob a luz de bergman tudo se depura e ficamo-nos a olhar fascinados e comovidos


sábado, setembro 17, 2005

terça-feira, setembro 13, 2005

tactear para ver no escuro III



2004



(poema de herberto helder sobre bloco de notas da ecoteca)

Quando alguém parte, tem de deitar

ao mar o chapéu com as conchas

apanhadas ao longo do verão,

e ir-se com o cabelo ao vento,

tem de lançar ao mar

a mesa que pôs para o seu amor,

tem de lançar ao mar

o resto de vinho que ficou no copo,

tem de dar o seu pão aos peixes

e misturar no mar uma gota de sangue,

tem de espetar bem a faca nas ondas

e afundar o sapato,

coração, âncora e cruz,

e ir-se com o cabelo ao vento!

Depois, regressará,

Quando?

Não perguntes.

ingeborg bachmann / excerto do poema canções de uma ilha

quinta-feira, setembro 08, 2005

um jardim de betão à beira mar plantado ou quando o 'progresso' entra pela porta sai tudo pela janela

temo muito seriamente que o que actualmente é assim

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se transforme nos próximos anos nisto

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estão previstas para a freguesia de Melides perto de 6000 novas camas entre as 50 000 mil que se espera para toda a zona que sobe dali até Tróia
o presidente da câmara municipal de Grândola já afirmou que com ou sem despacho ministerial a coisa vai avançar
é preciso mais?

imagens Google Earth (http://earth.google.com)