segunda-feira, novembro 22, 2004

manobra de heimlich

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COLOSSO

Nunca conseguirei juntar-te todo,
compor-te, colar-te e unir-te devidamente.
Zurros de macho, grunhidos de porco e cacarejos obscenos
saem dos teus grandes lábios.
É bem pior que num curral.

Talvez te consideres um oráculo,
porta-voz dos mortos, ou de um ou outro deus.
Há trinta anos que trabalho
para dragar o lodo da tua garganta.
Pouco mais sei!

Trepando pequenas escadas com frascos de cola e baldes de lisol
rastejo como uma formiga de luto
sobre as terras cobertas de erva da tua fronte
para reparar as imensas placas do teu crânio e limpar
os túmulos brancos, vazios dos teus olhos.

Um céu azul saído da Oresteia
arqueia-se sobre nós. Ó pai, tu só és vigoroso e histórico como o Fórum Romano.
Abro a minha merenda numa colina de ciprestes negros.
Os teus ossos estriados e os teus cabelos
como o acanto estão espalhados

na sua velha anarquia até à linha do horizonte.
Seria preciso mais que o golpe de um relâmpago para criar tal ruína.
De noite escondo-me na cornucópiua
do teu ouvido esquerdo, abrigada do vento,

contando as estrelas, rubras ou cor-de-ameixa.
O sol ergue-se sob o pilar da tua língua,
as minhas horas casam-se com a sombra.
Já não escuto o raspar de uma quilha
nas brancas pedras do desembarcadouro.

(sylvia plath)

2 comentários:

Carla de Elsinore disse...

isto é muito bom

pasárgada disse...

sintonias...